segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Céu e inferno

 
 
Intrigado com algumas coisas que ouviu, o menino perguntou para o avô enquanto caminhavam:

“Vô, no inferno tem passarinho cantando?”
“Inúmeros. A perder de ouvido.”
“Tem flor?”
“Milhares e milhares delas, as mais lindas que podemos imaginar e outras tantas que a gente nem consegue.”
“Tem mar?”
“Muitos. Aliás, praias, conchinhas, ondas e surfistas também.”
“Tem abraço?”
“Dos melhores.”
"E o céu fica todo azulzinho quando faz sol?"
"Fica. Céu assim é tão bonito que chega até a comover, né?"
“As pessoas amam?”
“Amam. Gente é feita pra amar, embora geralmente erre um monte de exercícios enquanto está aprendendo.”
“Tem pipa?”
“À beça.”
“Tem chocolate?”
“É claro! Pode existir algum lugar onde não haja chocolate?”

O menino silenciou por alguns segundos, a expressão dizendo um desconcerto dos grandes, muito maior do que aquele que mostrou no tempo da primeira pergunta.

“Ué, vô, eu não entendo... Ouvi dizer que o inferno é tão ruim!”
“E é.”
“Mas se tem tudo isso...”
“Tem, sim, amado, as mesmas coisas do céu que você imagina estão também no inferno. Todas elas.”
“Então, é tudo igual?”
“Não. A diferença é que no inferno as coisas todas do céu continuam presentes, mas, por temporária impossibilidade, a gente não consegue percebê-las. "

Ana Jácomo.

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1 comentários:

Maga disse...

Calou profundo !!!!

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Claudia Mei
É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Clarice Lispector
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