quinta-feira, 20 de outubro de 2011

As mulheres são verdes


Conversando com um velho homem, um jovem desabafou:

- Há tanto tempo venho querendo conhecer uma garota e hoje, conseguindo falar-lhe por telefone, fiquei decepcionado...

- Mas por que?, indagou o velho homem.

- Eu lhe perguntei, timidamente, como ela era e ela, rindo, me respondeu: sou verde!

- E por que a resposta o chocou?

- Ora, amigo, ela estava debochando de mim!

Ouvindo isso, o velho homem pôs-se a falar:

- Meu jovem, você não entendeu que ela estava se comparando a uma árvore!

- Árvore? Como assim?!

- Menino, as mulheres são como as árvores: elas fincam raízes no solo dos nossos corações; têm paciência e capricho com o próprio crescimento; seus braços são poderosos e, ao abraçá-las, nossos espíritos recebem renovadas energias; elas amam e cuidam dos seus frutos, mesmo sabendo que, um dia, o mundo os levará para longe delas;

Outras – aquelas que não dão frutos – oferecem sua sombra àqueles que necessitam de descanso; quando açoitadas por fortes ventos da vida, elas emanam o perfume da força e da fé, acalmando-nos, por mais assustadora que seja a noite;

Sua seiva são as lágrimas de dor ou de alegria quando em presença do machado ofensor ou do regador daqueles que as amam; seus corações vão alto o suficiente para escutarem mais de perto os recados do céu;

Elas reverdecem as florestas dos homens, as ruas das cidades, as avenidas, os acostamentos de estradas e as beiras de rios; elas entendem o canto dos passarinhos e, mais do que ninguém, elas valorizam e protegem seus ninhos; suportam melhor a solidão e as vicissitudes que a vida às vezes nos impõe; no mundo, elas nascem em maior número para que o verde da esperança jamais empalideça;

Meu menino, todas as mulheres são árvores, todas as mulheres são verdes!

Ao final desse relato, o rapaz refletiu:

- Eu tenho um triste jardim no peito, nele está faltando uma árvore!

… e correu para o telefone mais próximo!

Silvia Schmidt, do livro "Nossas Raízes".

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2 comentários:

Nilcea disse...

lindo...lindo...lindo demais.

Maria Izabel Menezes disse...

Muito lindo mesmo. Adorei ser árvore frondosa e com frutos. Lindo texto.

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É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Clarice Lispector
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